terça-feira, 8 de julho de 2014

rugas

Envelheci muito nestes últimos meses. Envelheci muito. Mais do que nos últimos anos. 
Tenho rugas. Rugas pelo corpo todo. São rugas de muitos momentos vividos. Ora amargos, ora doces. Momentos marcados nos sorrisos, nas lágrimas, nos gemidos, nos silêncios, nos olhares, nas mãos que se encontram e cruzam. No abraço que consola, nos lábios que iludem. Momentos marcados nas pregas do rosto, no peito, na barriga, ora cheia ora vazia. Rugas de momentos que subsistem na memória. Momentos que fazem o leme fraquejar, que pregam os olhos ao chão, que fecham o sorriso e embaciam o olhar de lágrima fácil.

Envelheci muito. Há mágoas e alegrias. Foram momentos. Parecem-me distantes agora. Fizeram-me rugas. As rugas ficam, marcam o caminho dos momentos, traçam a vida das memórias.
Há rugas pelo corpo todo. Rugas de quem se deu, de quem o sangue pediu. Rugas que em dia de tormentos despertam saudade no espelho. Rugas que me fazem lembrar-te numa memória que passou, mas que não me saem do rosto, do corpo. Eu sinto-as e elas prendem-me a ti.

a ver se funciona


terça-feira, 1 de julho de 2014

rewind

Tinha cinco anos, diria eu. Era doce, cabelo castanho claro ondulado. Encostou-se a mim enquanto eu joga no telemóvel e disse-me "Olá". Ficamos as duas na minha imaginação. Chamaram pelo nome Ana João Araújo Fernandes e eu vi-a levantar-se e dirigir-se à senhora. Fiquei. Vi.

Hoje fiz pela primeira vez uma TAC à cabeça. As dores de cabeça têm sido constantes. Em tom de despiste e de forma a aumentar a preocupação, deite-me na maca. A respirar contidamente vi aquele aparelho mexer-se sobre a minha cabeça. A conversa da senhor era sobre o stress que eu não podia ter, ora eu não sou casada e não tenho filhos.
No fim perguntei-lhe timidamente se estava tudo bem. Disse-me: "é.. vai correr tudo bem. Sabe que a técnica que lhe fez a TAC teve um aneurisma". Continuou a falar e o que eu ouvi foi: "Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii". Sério? Sensibilidade, sabe o que é?

Enquanto organizava o meu disco externo encontrei um texto escrito por mim em 2011. Lindo. Andava eu à procura de mim. Não mudei nada:

«Como se aprende a flutuar sobre o abismo na indecisão, das perspectivas de futuro ou da ausência delas? De alguma forma vou ter de aprender, vou saber superar, aliás, vivi 24 anos a trabalhar para o momento em que termino o curso. É engraçado como tudo nos leva a esforçar por uma educação superior. Começamos bem pequeninos, eu aos 5 anos. Antes dos 5 em casa, somos incentivados a sermos espertos, despachados, a aceitar a opinião dos adultos. Aos 5 anos na escola aprendi as primeiras letras. E foi o início de uma longa caminhada, a caminhada para a sabedoria, pensam os de fora. Eu não tenho tanta certeza assim.».


segunda-feira, 30 de junho de 2014

Temporal

Lá bem no fundo, quando olho para trás tudo mudou mas sabe ao mesmo, sabe a presente, a hoje. É sem sabor há algum tempo, é sem sabor hoje. Desliguei o palato para me manter de pé, mas arrependo-me. Vejo-me mais fria. Não queria. Sinto que te deixei de querer sentir. Não queria. A disponibilidade para viver o momento é cada vez menos real. A ansiedade para vive-lo é cada vez mais pequena. O desejo arrefeceu. Sinto frio. Não queria.Não te quis. Dói não te querer. 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Adormecidos

São lados errados. Quebraste-o. Foram os laços do acreditar. Prenderam-no ao chão. Ele não sabe como correr quando o chamo para mim. Fica! Só sabe ficar. É tão simples eu fugir. Aproxima-te então, quase até ao toque. Atira-me ao chão. Eu não sei quantas vezes vou fugir para não voltar. Aproxima-te então,  pede-me que eu dou. Quero saber se neste sitio certo já não há perdão. E ninguém te vai prometer que é para sempre a paixão. Dámos uma volta, é só mais uma e mais uma e mais uma. Hoje vou te querer roubar outra vez. É difícil largar a mão. Não há paixão no olhar, há momentos sem calor. Mas eu sei que existir ao pé de ti é bem melhor. Vem que nem o último a cair vai perder.