quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

não penses mais nisso #2


"Não sou mais do que um fundo poço.
Sou extremista em individualismo, em determinação, em teimosia e em solidão.
Em egoísmo, em ambição, em amor-próprio.
Desafio-me com facilidade para lutas cegas, exijo sempre metas distantes, invejo todo o saber, autorizo-me a qualquer tipo de iniciação. Tudo me urge. (…)

Se eu própria me bastasse, fugiria para sempre.
Do teu corpo, das mãos quentes.
Mas sou frágil como um grão de neve. Derreto-me com leves sussurros e a ternura estonteia-me. Sofro de constante abstinência de amor."

Talvez sejas mais impossível do que eu gostaria que fosses, mas a gente vai continuar.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

escadas

Pronto, basicamente as coisas descarrilam, as coisas vão há vida delas voltam e baralha-nos. Os resultados ultrapassam-me e não fazem um real sentido. Deprimo e penso nas escadas, nas vezes que o meu 40 de degrau a degrau viu-se por mim obrigado a pisar a escada.
Relembro como elas são penosas, como todo o percurso me aborrece: subir virar à esquerda, virar à direita e entrar. Fica-se verde durante uns minutos, umas horas ou o dia, depende dos passos que o livro vermelho me relembra. Ao percorrer o mesmo caminho na volta passo por quem gosto de rir, por quem gosto de fazer rir, por quem passava bem sem ver e por quem o nome não sei dizer.
Sento-me e percebo que tenho de começar tudo outra vez. Suspiro e a minha persistência ganha-me, faz-me querer aceitar que a subida é penosa mas é sempre um desafio, como todas da vida.
Quando subimos é para descermos de um nobel price na mão, seja ele qual for, seja o propósito que for. Aqui, ali, lá longe ou além. Porque quero  mantê-las vivas, porque subi ao cimo de ti, porque subi pelos sorrisos de estranhos, porque subi para ler o jornal. Se subi é para trazer o prémio da satisfação, e que seja a satisfação traduzida na simplicidade de um bom café, o que interessa é que tenha valido a pena.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

grrrr

«Sou uma pessoa que precisa de saber. Saber se é certo errado. Saber o que os outros pensam. Saber se o meu saber é o melhor ponto de vista. Saber se festejo ou se me afogo em lágrimas. Saber dos outros. Saber-lhes os gostos. Saber agradar-lhes. Saber tê-los. Saber que não quero. Saber que não os quero. Saber que agrado. Saber que gostam de mim.
Antes de sabe-lo imagino-o de várias perspectivas e fico horas na cama a sentir um bando de emoções atravessarem-me, sobrevoarem-me como gaivotas na alvorada do dia, junto ás docas com aquele piar, com aquele som ensurdecedor e agudo de fome e agonia.
De ar desgastado de quem adormeceu em cima da hora de acordar, com olhos de que tudo é negro, dado tais olheiras, sinto-me naquele sitio, o sitio de quem nada sabe. Ora hoje é dia de rosnar.
"Do you konow where the wild things go?"


sábado, 8 de dezembro de 2012

violinos no telhado

«Numa primeira inspiração sobre o que a segura aqui, sente que é tudo. Numa segunda inspiração começam a aparecer as excepções. Após uns segundos, é o "quase nada" que lhe enche os pulmões.
Apesar de ter sido um ano vivo, as inseguranças mordem-lhe os medos, causam-lhe desconforto. O formigueiro nos ossos que prevêem o frio, vem em vagas e teme que seja um ano atípico, a excepção à regra, porque uns vão, outros desaparecem com o rumo das próprias  vidas e os que cá ficam, ficam  e não podem abraça-la de peito aberto, de coração sentido e de braços apertados. Os abraços ficam-se pelo despedir lento, do que havia mais para dizer sem nada da boca sair... Em silêncio, tudo absorvido em sons tristes de pés que se afastam contrariados e pouco paralelos no movimento, em forma de protesto. 

Enquanto caminha e se afasta , enquanto sente degrau por degrau, os violinos começam a ajeitar-se ao queixo, a melodia forma-se no exacto momento que tudo em conjunto se move: o batimento do pé, o arquear dos dedos, as vibrações das cordas, a força do arco, o som produzido com o eco na pequena caixa oca de madeira, o delicado e sensual movimento do corpo, a dança ritmada da cabeça e o  fluir do queixo. Tudo por um som sublime. Tudo num movimento orquestrado, apaixonado que nos permite fechar os olhos e senti-lo sem o ver.
E de olhos fechados quase tudo é mais fácil. O sentir. O cheirar. O querer ficar aqui, na pele quente da face com face, de mãos nas mãos, no balançar do calor que consome e que arde mesmo de olhos fechados.
São três segundos de sorrisos nos lábios que a fazem sempre querer voltar por mais e por mais tempo, e por mais intensidade, e por mais definição, por mais e mais.

"Talvez na tua fantasia, talvez no teu sonho acordado, quem sabe fosse amanhã o dia de ouvir violinos no telhado."

E faz-lhe quer ficar pelo tudo, pela excepção, pelo "quase nada"... apenas a faz querer ficar.»

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

vem fazer de conta

Tentando manter em mim uma certa consciência de que é cada vez mais difícil esconder-te, ainda assim, queria-te mais meu, porque corro sempre que alguém percebe que existes. Não tenho vergonha de ti pequeno, não, não tenho! Tenho vergonha de parecer diferente, transformada no mundo das letras, e de causar expressões faciais seguidas de um "sobreolho levantado" em verdadeira haste, como quem estranha o diálogo, a tombar para o monólogo, ainda mais quando estes acontecem com um cão.  
Mas caros leitores e querido pequeno, isto não veio do nada, antes de ti existiu uma parede de um quarto, e quando a parede teve de sofrer uma pintura, existiu o caderno, existiram as folhas soltas, as solas das sapatilhas ou mesmo as calças de ganga enquanto estava sentada numa esplanada.
Sempre foi uma necessidade aparvalhar com palavras ou rabiscos, nunca consigui deixar os pensamentos desvanecerem com o tempo, tenho de os marcar aqui e ali, porque eles existiram e consumiram-me, fizeram parte e a maioria continua aqui, em mim!
Mas pequeno não temas, tudo trás jogos de cintura e tu não foges à regra: o problema de seres público é o mesmo o problema de crescer. Quando crescemos deixamos de ser espontâneos  medimos o que dizemos, pensamos duas vezes, agradámos quase incondicionalmente porque temos "educação". Depois a hormonas e a educação trazem as restrições.  
Se és crescido podes deixar de ser autentico, mas pequeno, para já não, ainda não, ainda és uma criança e as crianças são como os bêbados, não têm consciência, portanto tudo é certo.
Tu ainda és certo, como muita coisa aqui, ainda vives em mim. 



segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

há dias assim!

"há dias tão grandes que parecem um mês inteiro. há dias que passam num abrir e fechar de olhos. há dias para esquecer. há dias para lembrar. há dias simples. há dias, meu deus, que são uma confusão. há dias silenciosos, metidos nos seus botões. há dias que dão vontade de falar. há dias cheios e dias em cheio. há dias quase vazios. e dias que mudam as nossas vidas. há dias em que só pensamos no futuro. e dias em que temos saudades de quase tudo. há dias comgrandes manhãs. e dias que se prolongam pela noite dentro. há dias ensonados. nublados como sonhos. há dias reais. dias irreais. há dias cheios de amigos. e outros mais sozinhos. há dias em que chove a cântaros. há dias em que perdemos a chave. e dias em que perdemos o autocarro. há dias em que o rei faz anos. há dias de greve. de trânsito e engarrafamentos. há dias de eleições e de novos governos. há dias sem carros. há dias da mãe, do pai e da criança. dias da música, da água e da dança. há dias em que perdemos a esperança. há dias em que cruzamos os braços. e dias em que arregaçamos as mangas. há dias em que ninguém nos cala. há dias em que nos apetecia mandar nisto tudo! há dias em que temos vontade de partir. e dias em que temos vontade de voltar. há dias coloridos e dias a preto e branco. há dias negros (verdadeiramente maus). e dias azuis. há dias trágicos. há dias em que aprendemos uma palavra nova. e dias em que temos uma palavra mesmo debaixo da língua. há dias em que tudo são sete cores. os pássaros, a vizinha, o senhor do talho, as flores! há dias bons para andar de bicicleta (e de triciclo). há dias em que perdemos a cabeça. há dias em que começamos tudo do princípio. há dias que já lá vão. há dias que nunca chegam. há dias em que contamos os dias para as férias. há dias em que temos orgulho do nosso país. e outros em que nos deixam muito envergonhados. há dias de cerimónia. e outros em que nos apetece andar descalços. há dias que passam a correr. e outros que vão andando... há dias de surf. e dias de sofá. há dias em que não fazemos os trabalhos de casa... e dias em que partimos o mealheiro. há dias que esticam. há dias que deviam durar para sempre. há dias em que nos apetecia mesmo dormir debaixo de uma grande árvore. há dias em que precisamos de um café. e dias em que precisamos de um abraço. há dias em que fazemos um amigo. há dias em que as coisas andam para trás. e dias em que o mundo anda para a frente. há dias que pedem uma banda sonora. e dias em que apetece cantar no duche. 
... e melhores dias hão de vir."

domingo, 2 de dezembro de 2012

ouvi dizer

«Existe um ele e uma ela, aqui, ali, ao virar da esquina, na casa do lado, do outro lado da rua, na cidade e no campo, neste continente ou num outro qualquer.
Existem um querer maior que é magnificado por tudo que nos rodeia enquanto crescemos.
O poder que nos leva ao cinema, que nos leva à música, aos livros, ás conversas, ao sonho, ao expoente da nossa loucura.
O poder que nos move, que nos faz dramatizar, que nos consome e que muitas vezes nos destrói. O poder de Romeu e Julieta, o poder do Manel e da Maria.
A dança dos nossos dias, os actos e ditos dos nossos corpos, boca e pensamentos.
Tudo por essa coisa, por esse ópio que ninguém condena e toda a gente procura.
Talvez seja mesmo isso, o fatalismo em si, que tudo não passa de uma doença e tudo nos leva a acreditar ser a nossa cura.
Existe o ele e ela e neles existe a dúvida do que querem.
Viver, seria o ultimato da resposta.»